Sou parecida com muitas outras mulheres, mas a noite sou diferente de todas elas.
Meu nome é Monalisa Rios de Oliveira, mas para meu trabalho fica melhor ser chamada de "Mona"; tenho 1,70 m, olhos azuis, corpo atlético, cabelos longos e pretos.
Digo sempre para não esperarem de mim verdadeiras respostas, não peça para falar da minha personalidade; esqueci de ser uma só, toda noite sou especial, de acordo com o jeito do meu cliente. Minha beleza está associada à sensualidade, atiço os homens, sou capaz de dilacerar um coração e não sentir nenhuma emoção. Tenho uma vida quimera, sem certeza de um ponto de chegada, o sofrimento é a única coisa exata.
Ás vezes a vida pede um porto, clama por sossego, mas insisto em curar meus vazios no poço mais fundo que encontro.
Mulheres como eu não devem amar, isso demonstraria fraqueza e total domínio. A amante deve ser esnobe, desdenhar do seu par, fazê-lo escravo se possível.
Em hipótese alguma deve ter atitudes comuns, deve ser única em todos os sentidos e fazer valer a regra: tudo vale entre quatro paredes (Ou não necessariamente entre quatro paredes)! É obrigatório ser sensual, usar roupas provocantes, ter o dom de pintar-se, usar saltos estontiantes, seu corpo deve ser impecável, a textura da sua pele: suave como um pêssego. Não pode ficar de TPM, estressada, indisposta ou sentir saudade de casa. Deve esquecer do passado e não idealizar o futuro, o presente é o único tempo importante o suficiente para exercer sua "profissão" com êxito.
Em meio às idéias mais absurdas, nesse turbilhão que é a minha vida; surge em uma noite aparentemente comum na danceteria, um homem igual a tantos outros presentes, mas com um único diferencial: ele tinha um semblante oblíquo e distinto de alguém procurando não só por uma companhia sexual e sim para toda vida (mulheres conseguem ler semblantes).
O tal homem aproximou-se devagar e como em um piscar de olhos dei por mim falando de minha vida e até rindo da minha situação, conversamos por horas e conheci parte de sua vida, seu nome era Miguel, (quando o disse foi como música erudita) só não falou sobre seus amores.
Ao raiar do sol Miguel partia, dizendo quando retornaria, esperei anciosamente por sua chegada, quando não mais esperava, ele apareceu na porta e de fato me olhou profundamente como um garoto dilaceradamente apaixonado. Como era um bom cliente, consumidor das bebidas mais caras, era concedido o direito de ficar ao seu lado o tempo que ele achasse necessário. Conheci mais um pouco do seu íntimo e conclui que sua vida amorosa era um fracasso, seu casamento estava falido e como não tinham filhos não se via mais preso à aquela que julgava anteriormente seu amor eterno, por medidas desesperadas procurou uma danceteria mais próxima do seu trabalho; para aventurar-se, afogar suas mágoas e tentar esquecer dos problemas em casa, mas por acaso me encontrou e quem sabe se apaixonou.
Dias se passaram e um romancce surgiu, nos encontrávamos na hora marcada e era como reviver minha adolescência, um namoro meio às escondidas mas recheado de sentimentos e planos. Muitas vezes ele me pediu para deixar meu trabalho, alegava que aquilo não era vida para mim e pedia para ficar sempre ao seu lado, mas eu não me sentia segura para tanto, pensava no momento dele se cansar de mim e ir em busca de outra; eu o amava, mas ao mesmo tempo era realista demais, as mágoas da minha "profissão" fizeram de mim um poço de medo!
-Eu disse: sempre serei a outra, mesmo amando e talvez se um dia quiser deixar essa vida incerta carregarei nas costas o peso do preconceito, o passado sempre seria a minha sentença de morte. Não sei ao certo se mesmo com tanto amor você suportaria ficar ao meu lado sofrendo tachações e desconfianças, nosso relacionamento seria repleto de rachaduras e remendos.
Ele não se posicionou, apenas calou-se e me beijou como se fosse a última noite em que nos veríamos.
Discutimos inúmeras vezes e por fim deixei a escolha de nosso destino em suas mãos e agora ele tenta deixar entre poucos olhares o que já não consegue falar,
esqueceu em um baú fundo o segredo para nossa felicidade,
deixou o mundo cair sob suas costas e o "amor" escorrer entre suas mãos, como água da cachoeira: sem rumo, sem chegada, sem certeza.
Por dias esperei uma resposta, cheguei a acreditar no súbito esquecimento típico de um primeiro encontro, mas em meio a tantos encontros dei por mim que afinal ele não me queria mais em sua vida.
Não tenho culpa por pensar em soluções,
maneiras, julgadas por mim eficazes. Não sei, ás vezes tenho essa manina idiota e acabo entrando em verdadeiras confusões.
Outro dia passei em frente a cada do Miguel, pensei em entrar, fazer o maior barulho na porta e pedir para voltar, contar a mulher dele do nosso caso, mas o bom senso voltou a mim e então segui meu caminho.
Alguns chamam isso de paixão ou melhor, amor platônico, outros, do mais puro e verdadeiro amor, discordo do primeiro, afinal de alguma forma já fui correspondida.
Tento não pensar nele, mas por mais que se queira, é pensado com certeza.
Quando eu esquecer dos momentos e do homem mais incrível que conheci, viverei melhor, talvez, quem sabe?
Vou tentar seguir meus dias, percorrer meu caminho sem a certeza ou quiçá a esperança de tê-lo nos meus dias novamente. Não vou procurá-lo, nem ligar, pensei até em me mudar, lugar qualquer que não existisse o pensamento nele, mas não dá. Penso, ás vezes, que talvez tenha desistido por medo ou seu amor por mim jamais existiu.
Mas eu o amei como nunca poderei amar outro alguém, vivi dias utópicos e toquei lentamente o céu quando ele ergueu suas mãos e me convidou para voar; foi o único entre muitos capaz de ver em mim além do esteriótipo criado pela sociedade e até por mim mesma; foi além, garimpou minhas qualidades mais ocultas, mas quando chegou a hora de aterrissar, custei a acreditar, chorei e quando me vi no chão já estava morta para ele, pois no seu coração não vou mais estar.
Deixo aqui o fim de mais um caso de "amor", com final previsto.
Enfim, amar para mulheres como eu é assim.
Iohanny Mayã Alves Lima.